Medicina Ayurvédica

O que é Ayurveda?

ayurveda001

Ayurveda significa conhecimento da vida (ayur =vida, veda=ciência ou conhecimento). É a ciência da saúde mais antiga da humanidade possuindo mais de 5000 anos de existência. A medicina Ayurvédica é parte da ciência védica e utiliza na sua abordagem terapêutica plantas medicinais, dieta, exercícios físicos, meditação, yoga, astrologia hindu, massagem, aromaterapia, gemoterapia (tratamento com metais e gemas), cirurgia e psicologia.

O Ayurveda afirma que existem 3 humores biológicos no nosso corpo, chamados de Doshas: Vata que possui o elemento ar predominante, Pitta onde o elemento fogo é o principal e Kapha caracterizado pelo elemento água.

Vata é como o vento ou o ar em movimento; é seco, leve, sutil e agitado. Pitta é semelhante ao fogo, caracteriza-se por ser quente, oleoso e leve. Kapha é como a água: úmido, frio, pesado e frio.

Na visão ayurvédica um excesso ou deficiência destas características descritas acima indica um desequilíbrio no Dosha (humor biológico) correspondente, o que gera alterações patológicas no corpo físico. Assim, Vata em desequilíbrio leva ao emagrecimento, debilidade, aversão ao frio, tremores, constipação, alterações no sistema nervoso, tonteira, colite, formação de gases e reumatismo. Pitta em desarmonia produz olhos e pele amarelados, fome em excesso, sede aumentada, febre, sensação de calor corporal, inflamações, infecções, azia e queimações. Kapha alterado gera fraqueza do sistema digestivo, palidez, calafrios, tosse com formação de mucosidades nos pulmões, sonolência, obesidade, hipoatividade das funções orgânicas e preguiça.
A partir do diagnóstico estabelece-se um roteiro de tratamento de acordo com as necessidades. Esse roteiro pode incluir as seguintes práticas e métodos:

Dinacharya e Swasthavritta:

Organização de uma rotina de práticas diárias saudáveis, adequadas à restauração e à manutenção da saúde, juntamente com a Orientação alimentar de acordo com a constituição do indivíduo.
Fitoterapia: uso de plantas medicinais visando o equilíbrio dos doshas e/ou auxiliar no tratamento de doenças já instaladas.

Massagens, Sauna ( Swedana) e oleações especiais:

incluem diversas técnicas, entre elas as mais conhecidas como Abhyanga, o Shirodhara , Marmaterapia e o Udwartana.

Yogaterapia:

indicação de posturas e exercícios respiratórios adequados as necessidades especiais do indivíduo.

Meditação e Mantraterapia:

técnicas diversas que auxiliam na harmonização dos doshas.

Programas de desintoxicação suaves:

Produz limpeza interior do organismo através do uso de óleos, ervas medicinais, massagens, e dietas para redução de toxinas.

Rasayanas:

técnicas voltadas ao rejuvenescimento, beleza e a prevenção do envelhecimento.

O tratamento será acompanhado pelo terapeuta, oferecendo todo o suporte necessário em relação a possíveis dúvidas e adaptações que se façam necessárias ao longo do processo terapêutico.

Doshas

“Dosha” é uma palavra Sanscrita que significa “culpa” ou “transgressão”. Enquanto este é o sentido literal, no contexto de cuidado à saúde seria mais apropriado traduzir “Dosha” como as “forças, no corpo, que mais facilmente se desequilibram”.

ayurveda002

Falando mais sobre os 3 Doshas:

Vata, Pitta, Kapha.

Vata

significa a força que gera e possui as qualidades do “ar” ( e do espaço). Vata não é “gás”, mas a força que, quando em excesso, produz “gás”.

Pitta

significa a força que gera e possui as qualidades do “fogo”. Pitta não é “bile”, mas a força que, quando em excesso, produz “bile” e “ácido”.

Kapha

significa a força que gera e possui a qualidade da “água” (e terra). Kapha não é o “muco”, mas a força que, quando em excesso, produz “muco”.
Cada um de nós é feito da combinação dos 3 Doshas. Ao tempo da concepção, a Natureza decide a permutação – combinação de Doshas, dentro de cada um de nós. Isto é que faz de cada um de nós, um ser único.

As Doshas têm:
• traços físicos que se traduzem nas descrição física da pessoa, por exemplo, altura, compleição, olhos, etc.;
• traços mentais e comportamentais que se traduzem na espécie de pessoa que nós somos, como dormimos, sonhamos e pensamos; como reagimos a situações externas, nossas forças e fragilidades emocionais, nossa atitude com relação a dinheiro – se somos gastadores, avarentos ou administradores de dinheiro;
• traços intelectuais que se traduzem em se somos pensadores e sonhadores, designers e planejadores ou pessoas silenciosas que trabalham com afinco e trabalhadores sólidos ;
• doenças e traços que são responsáveis pelo fato de diferentes espécies de clima, alimento, meio-ambiente serem benéficos ou danosos a nós.
Tudo isto a Mãe natureza decide na hora de nossa concepção e durante o período que passamos no útero materno. Assim, é importante compreender nossa constituição de forma a tornar-nos consciente de nossas forças e nossa predisposição interna para certas doenças e padrões negativos de procedimento. Este é nosso ” Prakriti” – nossa Natureza.
Os Doshas podem ser controlados através dos 6 sabores – salgado, picante, adstringente, amargo, doce e azedo. Estes sabores podem agravar e pacificar diferentes Doshas.
Com este conhecimento nós estamos capacitados a prevenir doenças, curar a nós mesmos e compreender melhor nossas relações interpessoais.

Como?
Deixe-nos tomar um exemplo bem simples.
A raiva é uma qualidade Pitta . Vamos dizer que alguém seja um “tipo” Pitta e raiva seja um dos atributos de Pitta que esta pessoa tenha em abundância. Ela também sabe que Pitta é agravado pelos sabores salgado, picante e azedo. Se ela identifica que a raiva está contribuindo para seus problemas, no dia a dia, ela deve tentar e reduzir e, se possível, suspender seu consumo destes três sabores. Também sabemos que Pitta é pacificado pelos sabores amargo, doce e adstrigente. Esta pessoa deveria garantir que seus alimentos contém alguns destes sabores. Por um período de tempo, ela perceberia que está gerenciando sua raiva de forma mais adequada.

Tomando o mesmo exemplo, vamos dizer que esta pessoa tem uma reunião muito importante, onde os temperamentos correm o risco de explodir. No dia da reunião (e provavelmente no dia anterior) ela poderia abster dos “sabores agressivos” e comer um pouco dos “sabores pacificantes”, imediatamente antes da reunião. Desde que coisas geladas pacificam Pitta , ele deveria armar-se de um copo de água gelada para beber durante a reunião.

Da mesma forma, outros atributos e doenças podem ser gerenciados. É claro, este sistema é maravilhoso como medida preventiva e funciona muito bem para corrigir pequenos desequilíbrios mas torna-se bastante complicado quando surgem doenças sérias. Em doenças sérias, todas as três Doshas estão, usualmente, fora de equilíbrio e o truque está em descobrir aquela que é mais fácil ajustar sem posteriormente agravar as outras duas. Isto pode ocorrer porque, o que pode pacificar uma Dosha, usualmente agrava outra.

De modo a podermos compreender a nós mesmos, nossos problemas e as soluções que resolvem estes problemas, nós precisamos avaliar nosso “tipo” de personalidade. A seguir, uma relação de qualidades que pertencem a cada Dosha, sob diversos títulos. Para encontrar o seu perfil, selecione aquelas que, mais aproximadamente, descrevem sua maneira de ser.

Por favor, entenda que não há respostas certas ou erradas. Há somente respostas verdadeiras e falsas. Não se perceba como gostaria de ser, mas como é. Nossa personalidade inata vai estar conosco por um período de tempo, portanto aprender a reconhecer suas facetas é o primeiro passo em tentar viver com elas, em harmonia, a fim de prever verificações e ajustes e mantê-las em níveis gerenciáveis.

V significa Vata ; P significa Pitta ; K significa Kapha .
Some seu escore de “V” , “P” e “K” para descobrir que Doshas são predominantes.

1. Qualidade Destacada
V – Irregularidade, frio, seco
P – Irritabilidade, quente, oleoso;
K – Estabilidade, frio, molhado

2. Construção física
V – Muito alto, muito baixo, magro, ossudo, pobremente desenvolvido.
P – Constituição média, bons músculos, peso médio.
K – Baixo ( ou alto), corpulento, ossos bem desenvolvidos, pesado, obeso.

3. Cútis
V – Escuro, negro
P – Vermelho, ruborizado
K – Pálido

4. Pela
V – Seca, áspera, veias proeminentes, quebradiça, circulação pobre.
P – Rosada, quente, úmida, sardenta, verrugas, com boa circulação.
K – Macia, suave, fria, oleosa, com boa circulação.

5. Cabelo
V – Escasso, vulgar, seco, ondulado.
P – Moderado, fino, embranquecido prematuramente e calvo.
K – Espesso, lustroso, oleoso.

6. Fronte
V – Pequena.
P – Com dobras.
K – Grande.

7. Sobrancelhas
V – Pequena, pouco espessa, irregular.
P – Moderada, fina.
K – Espessa, cerrada.

8. Cílios
V – Curtos, secos, firmes.
P – Curtos, pouco espessos, finos.
K – Longos, espessos, oleosos, firmes.

9. Olhos
V – Pequenos, tolos, instáveis, secos.
P – Médios, vermelhos (inflamados), penetrantes.
K – Grandes, proeminentes, atraentes, “olhos de corça”.

10. Nariz
V – Fino, pequeno, torto, freqüentemente seco.
P – Médio.
K Grande,espesso,oleosos.

11. Lábios
V – Espesso, seco, instável, escuro.
P – Médio, macio, avermelhado.
K – Grande, macio, rosado, úmido, firme.

12. Dentes e gengivas
V – Irregulares, tortas, reduzidas.
P – Médias, uniformes, rosadas claro, sangram com facilidade, com cavidades.
K – Grandes, uniformes, com dentes sadios, gengivas rosadas.

13. Ombros
V – Estreitos, pequenos, lisos.
P – Médios.
K – Largos, grandes, bem desenvolvidos.

14. Peito
V – Estreitos, pequenos, pobremente desenvolvidos.
P – Médios.
K – Largos, Grandes, bem desenvolvidos.

15. Braços
V – Magros, curtos (ou longos de mais), veias proeminentes.
P – Médios.
K – Grandes, espessos, bem desenvolvidos.

16. Mãos
V – magras, frias, secas, ásperas, irregulares (com fissuras).
P – Médias, quentes, rosadas.
K – Grandes, oleosas, firmes frias.

17. Panturrilhas
V – Pequeno, duro.
P – Solto macio .
K – Arredondado, firme.

18. Pés
V – Pequenos, magros, secos, ásperos, com fissuras,irregulares.
P – Médios, macios, rosados.
K – Arredondados, firmes.

19. Juntas
V – Pequenos, magros, secos, irregulares, com rachaduras na pele.
P – Médios, macios, soltos.
K – Grandes, bem-feitos.

20. Unhas
V – Irregulares, com arestas e depressões, unhas roídas.
P – Macias, fortes, polidas, rosadas.
K – Grandes, descoloridas, espessas, simétricas, oleosas.

21. URINA
V – Poucas, difíceis, sem cor.
P – Profusas, amarelas, avermelhadas, que queimam.
K – Moderadas, esbranquiçada, leitosas.

22. Fezes
V – Escassas, duras, secas, com gases, frequentemente presas.
P – Moles, abundantes, soltas, sensação de queimação.
K – Regulares, bem formadas, mucosas.

23. Suor e odor do corpo
V – Escasso, sem cheiro.
P – Profuso, quente, cheiro forte.
K – Moderado, frio, cheiro agradável.

24. Apetite
V – Variável, errática.
P – Forte, aguda.
K – Constante, baixa.

25. Voz
V – Baixa, fraca, rouca.
P – Alta, agressiva, aguda.
K – Agradável, profunda, bom tom.

26. Discurso
V – Rápido, inconsistente, errático, falante.
P – Moderado, argumentativo, convincente.
K – Vagaroso, definido, pouco falante.

27. Natureza mental
V – Rápida, adaptável, indecisa.
P – Inteligente, penetrante, crítica.
K – Vagarosa, firme, estúpida.

28. Memória
V – Pobre, aprende devagar, esquece devagar.
P – Aguda, clara.
K – Vagarosa para perceber mas retém por longos períodos.

29. Tendências emocionais
V – Amedrontado, ansioso, nervoso.
P – Raivoso, irritável, contencioso.
K – Calmo, contente, apegado, sentimental.

30. Fé
V – Errática, mutável.
P – Determinada, fanática, líder
K – Constante, leal.

31. Sono
V – Leve, tendendo à insônia.
P – Moderado, pode acordar mas dorme de novo.
K – Pesado, difícil de acordar.

32. Sonhos
V – Pesadelos, vôos, incansáveis, ameaçadores.
P – Coloridos, apaixonados, vívidos, em controle.
K – Românticos, sentimentais, não pode recordar os sonhos.

33. Hábitos
V – Gosta de mover-se, viajar, parques, jogos, piadas, estórias.
P – Esportes, política, pintura, caça, florestas, correntezas, natureza.
K – Lagos, água, velejar e flores.

34. Atividade
V – Hiperativo, rápido, errático, inseguro.
P – Motivado, determinado, firme.
K – Vagaroso, firme.

35. Vigor
V – Pouco vigor, começa rápido, termina rápido.
P – Médio mas pobre em calor.
K – Vagaroso no começo mas segue com grande resistência.

36. Natureza sexual
V – Variável, intensa, gasta-se rapidamente, baixa fertilidade.
P – Balanceada, fertilidade média.
K – Firme, vagarosa para estabelecer-se, fertilidade alta.

37. Sensitividade
V – Desagrada-se de frio, vento e tempo seco.
P – Teme o sol, calor e fogo.
K – Teme o frio e o úmido, gosta do vento e do sol.

38. Sistema imunológico
V – Pobre e variável.
P – Médio, com tendência à infecções.
K – Bom, consistente.

39. Tendência à doença
V – Sistema Nervoso, dores, artrítes, desordens mentais, prisão de ventre.
P – febres, infecções, inflamações e pele.
K – Respitarório, muco, edemas e doenças resultantes.

40. Resposta à terapia e medicação
V – Rápida, baixa dosagem requerida.
P – Média (sensível à aspirina que não deve ser usada).
K – Demora a curar, requer doses altas.

Swasthavritta: A Medicina Preventiva Ayurvedica

Toda pessoa normal deseja uma vida longa, produtiva e feliz, mas para isto se realizar é necessário ter svastha ou saúde. Para o Ayurveda um ser humano saudável é aquele que apresenta Doshas ( humores) e Agni ( fogo digestivo) em equilíbrio, Dhatus ( tecidos) e Malas ( excreções) cumprindo suas funções adequadamente e um bem estar com relação a sentidos, mente e alma ( Atma).. A definição da Organização Mundial de Saúde é semelhante a visão da Medicina Ayurvedica: “saúde não é apenas a ausência de doença mas o completo bem estar físico, mental e social”. Para alcançarmos este objetivo necessitamos de uma rotina diária de hábitos saudáveis denominada dinacharya.

O médico e mestre de Ayurveda, dr. Robert Svoboda, afirma que Svasthavritta significa “estabelecer-se em bons hábitos”.A Medicina Ayurvedica tem recomendações para uma vida saudável desde o momento que se acorda até a hora de dormir. A regra de ouro na tradição indiana é a moderação, ou seja, todos os excessos e deficiências são prejudiciais a saúde. Este talvez seja uma das maiores dificuldades na vida ocidental: seguir o “caminho do meio”. Durante uma interessante aula, em um curso na Índia, o professor, médico ayurvedico e sacerdote brâmane, afirmou de forma contundente: “uma rotina diária equilibrada deve ser dividida em 3 partes: 8 horas de descanso noturno ( sono), pois o repouso é a base da atividade, 8 horas de trabalho e as outras 8 horas para família, higiene, atividade física, transporte, alimentação saudável e meditação”. Quando ele disse isto uma pergunta surgiu na minha mente “será que eu sigo esta sábia recomendação no Brasil ?”

Quando nós olhamos para a natureza observamos que ela segue um ritmo. Podemos ver isto nos ciclos de dias e noites e nas estações do ano. O ser humano é um “mini universo”, ou seja, um microcosmo dentro do macrocosmo. As mesmas leis que regem o universo também controlam a fisiologia humana. Se nós queremos ter mais saúde é necessário uma sintonia com estas leis. Semelhante a um jogo de futebol: quando nós entramos em campo temos que respeitar as regras se não podemos ganhar um cartão amarelo, um aviso, e se continuamos violando as normas somos punidos com cartão vermelho, ou seja, estamos expulsos de campo. Desta mesma forma é interessante equilibrar nossas ações e hábitos com as leis da natureza, pois estas são invencíveis. Infelizmente não existe outra maneira de alcançar o bem estar físico, mental e emocional que nós buscamos. O Ayurveda enfatiza esta harmonia com a natureza.

O Ayurveda recomenda acordar cedo, e o ideal é após levantar beber água, em jejum, a temperatura ambiente, deve-se tomar um ou dois copos d água bem cheios pois isto ajuda a ir ao banheiro e evacuar. Deve-se habituar o intestino a funcionar todo dia pela manhã. O Ayurveda afirma que o intestino é o jornal do corpo, deve-se ler o jornal todo dia pela manhã para saber como está o corpo. Qualquer distúrbio nas excreções pode ser um sinal de uma digestão inadequada e acumulo de Ama ( toxinas digestivas) princi-palmente se estiver associado a uma cobertura espessa e pegajosa na língua. Neste caso o ideal é não se alimentar e utilizar chá de ervas como o gengibre e erva doce ( Foeniculi vulgaris), que auxiliam a regularizar a função digestiva, até normalizar a evacuação. Claro que se o distúrbio persistir procure um profissional de saúde.

Após o banho matinal tire alguns minutos para a introspecção e autoconhecimento. Com este objetivo é importante ter um “cantinho de meditação”, onde você pode colocar uma almofada no chão ou cadeira para a prática, porem se você for um devoto, como eu, pode fazer um pequeno altar com seus mestres. Claro que ninguém tem a necessidade de ter um altar para meditar regularmente. Isto é algo pessoal pois sigo o caminho devocional chamado de Bhakti Yoga. O mais importante é comprometer-se a sentar diariamente e praticar meditação, 15 a 20 minutos, 2 vezes ao dia, manhã e noite, são suficientes para os iniciantes. Um livro, que comecei a ler recentemente, que estimula e explica esta metodologia é “Meditação para Leigos” de Stephan Bodian. Boas meditações!

Prof. Dr. Aderson Moreira da Rocha, clínico geral, reumatologista, especialista em Acupuntura
pela Associação Médica Brasileira e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy

Fitoterapia Ayurvedica: Açafrão

O açafrão ou Cúrcuma é uma planta medicinal que cresce nos países tropicais com características singulares, chega a 90 cm. de altura, apresenta um caule alongado e folhas grandes com 30 a 40 cm de comprimento, os belos rizomas
medicinais se destacam, quando a erva é retirada do solo, com uma cor alaranjada, formato cilíndrico e 2 a 6 cm de comprimento. Possui uma mistura dos sabores amargo e picante, sua fragrância é aromática e temperada. Em sânscrito é chamada de haridra que significa aquela que melhora a compleição da pele pois tem ótimos resultados em dermatologia. A planta medicinal tem uma poderosa ação antioxidante e depuradora. Destaca-se na culinária indiana e nos festivais hindus há muitas centenas de anos.

Um importante principio ativo da Cúrcuma é a curcumina que não é facilmente absorvido pelo organismo porem a piperina encontrada na pimenta do reino facilita a sua absorção..Tanto o açafrão como a pimenta do reino estão presentes nas misturas do curry em pó e estudos realizados por epidemiologistas indicam que na Índia, onde o curry é muito utilizado na dieta cotidiana, as taxas de doença de Alzheimer estão entre as mais baixas do planeta. A hipótese dos pesquisadores é que as propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias presentes nas misturas de condimentos com cúrcuma e pimenta do reino são fatores relevantes na prevenção do Alzheimer. Por esta razão, a curcumina, tem sido utilizada nas pesquisas cientificas, realizadas nesta doença, cada vez mais comum no ocidente.

Nos últimos anos mais de 300 artigos científicos mencionam a curcumina, segundo estas pesquisas, este principio
ativo do açafrão, e seus compostos relacionados, os chamados curcuminoides, apresentam as seguintes propriedades: antioxidante, anti-inflamatória, antiviral, antifúngica, antisséptica, com atividade contra Alzheimer, Parkinson, câncer, diabetes, alergias, artrites, auxilia no tratamento do aumento do colesterol, doenças autoimunes e cardiovasculares. O Centro de Câncer M.D. Anderson da Universidade do Texas, líder mundial em pesquisas sobre a doença, recomenda que os pacientes adotem, de forma gradual, uma dose de 8 gramas de curcumina ao
dia, o que é cerca de 40 vezes a quantidade presente na dieta indiana. O pesquisador indiano Bharat Aggarwal, do
M.D. Anderson, foi questionado por possíveis efeitos colaterais, e declarou que ensaios clínicos menores, de outras instituições, ministram até 12 gramas e se houvesse qualquer efeito desfavorável os pacientes teriam notado.

O médico indiano Deepak Chopra no seu recente livro “ Você Tem Fome De Quê ?” coloca alguns importantes usos e efeitos terapêuticos da planta medicinal: A Cúrcuma tem efeito protetor sobre o fígado e ajuda a reduzir os níveis de colesterol elevado no sangue, já nos tratamentos de artrite ajuda a diminuir a dor e rigidez, porem estudos em animais demonstrou que o açafrão pode diminuir ou inibir o desenvolvimento de células cancerígenas, apresenta efeito calmante na digestão e reduz o risco de ulceras e por ultimo, como antibiótico natural, ele pode inibir o desenvolvimento de bactérias, leveduras e vírus em laboratório. (ver Chopra, Você Tem Fome De Que?, p. 127).

Uma planta medicinal para ser utilizada no Ayurveda deve, necessariamente, ser interpretada pela farmacologia indiana ou Dravya Guna. Nesta ciência, o açafrão, tem sabores amargo, picante e adstringente, potencia quente, equilibra os 3 Doshas ( humores biológicos) e beneficia todos os tecidos. Apresenta as seguintes ações: digestivo,
anti-inflamatório, depurador do sangue, antibiótico, antialérgico, anti-anemico, anti-diabético, hepatoprotetor, remove doenças de pele, beneficia a mama, anti-tumoral, trata doenças respiratórias, antioxidante, melhora o fogo
digestivo (jatharagni) e beneficia a função ginecológica.
Devido as suas importantes propriedades apresenta as seguintes indicações na Medicina Ayurvedica: distúrbios do fígado, reumatismo, doenças de pele, diabetes, anemia, gastrite, endometriose, corrimento, colite, asma, bronquite e aumento do colesterol no sangue. Externamente é usado em dermatites, eczemas e psoríase. Na Europa foi provado
pela comissão E alemã nos seguintes distúrbios: dispepsia ( má digestão) e perda de apetite. A dose diária é de 1 a 3 gramas do pó seco, que pode ser misturado no mel ou fervido no leite orgânico ( leite medicado). Porem seu uso deve ser evitado na gravidez, agravação importante do dosha Pitta ( fogo) e obstrução biliar.

A mensagem do Ayurveda é que podemos utilizar o poder terapêutico dos condimentos, como açafrão, gengibre, alho, canela, noz moscada, hortelã, coentro e cominho para melhorar nossa digestão e absorção dos alimentos, prevenir a formação de toxinas no tubo digestivo ou Ama e beneficiar a nossa saúde como um todo. A sabedoria ayurvedica recomenda o uso dos 6 sabores na dieta e podemos alcançar esta meta utilizando os temperos, de forma moderada, em um programa de alimentação natural e saudável ao fazermos escolhas mais simples e inteligentes.

Prof. dr. Aderson Moreira da Rocha, clínico geral, reumatologista, especialista em Ayurveda e Acupuntura.
Presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda”
Dieta detox ayurvédica (anti-ama)
Por Marise Berg

Ayurveda é sinônimo de Medicina Tradicional Indiana. Esse sistema de saúde preconiza que a boa digestão é um dos principais pilares da saúde, portanto, quando o sistema digestivo não funciona na sua potência ideal ou quando a matéria-prima não é adequada à nossa fisiologia e às necessidades nutricionais individuais, as células não recebem matéria-prima adequadamente, o organismo perde vigor e formam-se bio-toxinas, conhecidas atualmente como radicais livres. Por exemplo, o conservante nitrito utilizado para a conservação de carnes, ao ser ingerido se complexa com aminas formando as nitrosaminas, substâncias com alto potencial carcinogênico. Outro exemplo é o aspartame, um adoçante derivado de proteínas que tem o potencial de desencadear enxaquecas. Além da dieta inadequada, também estamos expostos a outras fontes de contaminantes como a poluição do ar, medicamentos, drogas, cosméticos, corantes, conservantes, agrotóxicos, metais pesados, excesso de gorduras trans e sódio, etc, além de álcool, tabaco e o estresse da vida moderna.

Em Saúde, a prevenção é o melhor remédio. Mas, como não é possível “blindar” o organismo do contato com substâncias tóxicas, a dieta anti-ama se apresenta como uma abordagem terapêutica natural não medicamentosa para eliminar toxinas e os seus efeitos nocivos, considerado o primeiro passo para restaurar o equilíbrio do organismo e os mecanismos internos de auto-cura. De forma geral, o Detox é recomendado para a prevenção e tratamento de desequilíbrios de saúde em fase subclínica (assintomáticos ou com sintomas inespecíficos) ou no estágio precoce das patologias, e também para promover o rejuvenescimento.
São considerados sintomas de intoxicação:
• Indigestão, inapetência (falta de fome e apetite), alterações no paladar
• Sensação de peso, fadiga, letargia e cansaço após as refeições
• Cansaço excessivo sem causa aparente
• Eructação e flatulência (gases) excessivos
• Mau hálito ou odor corporal desagradável, suor excessivo
• Constipação ou irregularidade nas excreções, alteração na consistência das fezes que se torna pesada, pegajosa e/ou com presença de alimentos
• Cobertura esbranquiçada ou amarelada na língua
• Febre
• Presença de muco excessivo
• Ressecamento da pele
• Letargia, lentidão, apego, mágoa, preguiça. Sonolência em excesso, dificuldade de acordar pela manhã
• Inchaço e edema (retenção de líquidos)
• Aumento da suscetibilidade às doenças infecciosas
• Dor de cabeça
• Dores musculares

Todas as substâncias podem ser tóxicas dependendo da sua concentração. Um apropriado programa de desintoxicação enfoca no decréscimo dos níveis de exposição às toxinas, enquanto oferece ao organismo um apropriado suporte nutricional pois parte da eliminação de toxinas se dá por meio de mecanismos dependentes de enzimas e cofatores como vitaminas, minerais e fitoquímicos presentes nos alimentos, além da hidratação adequada.

Dessa forma, recomenda-se a dieta anti-ama de forma regular e preventiva. Após o período da dieta, o tratamento tem continuidade por meio de terapias corporais como massagem e sauna, meditação, Yoga e exercícios respiratórios, e se completa com um plano nutricional revigorante.

Além do enfoque na qualidade dos alimentos, a dieta anti-ama contempla muitos aspectos positivos, dentre eles, a sugestão de hábitos saudáveis como mastigar corretamente os alimentos, fazer a leitura dos rótulos de produtos industrializados, consumir as refeições em horários regulares, a prática de atividade física, e o aprendizado de técnicas básicas de culinária saudável. O equilíbrio emocional é estimulado, além do incentivo às práticas de relaxamento e meditação, massagens, sauna e terapias corporais, coadjuvantes importantes no controle do estresse.

Frequentemente os adeptos do Detox percebem benefícios, embora, tecnicamente nenhum deles comprove que a dieta potencializou o funcionamento dos órgãos como o fígado e rins fazendo com que eles funcionassem acima da sua capacidade normal. Destacam-se a perda de peso, a melhora da energia e disposição, a aquisição de hábitos saudáveis e a liberação dos condicionamentos nocivos, a melhora da qualidade do sono, alívio dos sintomas da TPM, celulites, diminui o inchaço, melhora o humor, a memória, o raciocínio e a disposição.

A dieta anti-ama deve ser leve, de fácil digestão, variada, colorida e energizante, rica em alimentos frescos e reguladores como frutas e verduras, além de feijões, cereais e especiarias.

O cardápio é livre de laticínios, alimentos processados, carnes, fungos (shitaki, shimeji); chocolate, achocolatados, sorvete, tortas e bolos; fritura, vinagre, adoçantes sintéticos, condimentos artificiais, molhos cremosos; café (permitido até 1 dose), refrigerantes, bebidas gasosas ou geladas; alimentos artificiais, junk e fast food, enlatados, refinados, embutidos, congelados, transgênicos, irradiados ou cozidos em microondas, excessivamente cozidos, velhos, envelhecidos ou recozidos.

Um profissional de saúde deve ser consultado para elaborar a dieta personalizada, observando as características biopsicosociais (doshas) do paciente.

A dieta anti-ama é segura para pessoas saudáveis que desejam se desintoxicar e ganhar energia. Por ser uma dieta vegana, que exclui temporariamente leite e laticínios, é restrita em cálcio, o que inspira alguns cuidados, além de algumas contraindicações. Mulheres em amenorréia ou na menopausa ou grávidas ou lactantes, pessoas diagnosticadas com deficiência de cálcio (osteopatias), com anorexia nervosa, crianças, adolescentes, idosos, pessoas com hemorragia, hemofílicos e com distúrbios de hemostasia, hipertensos e portadoras de doenças cardiovasculares não devem se submeter à dieta sem acompanhamento de um médico com especialização em Ayurveda.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio do documento “Estratégia da OMS sobre Medicina Tradicional 2002-2005”, reconhece o Ayurveda como um sistema como uma eficaz medicina tradicional e não apenas um modismo. Os princípios nutricionais ayurvédicos são praticados com êxito há muitas gerações, não se tratado de uma novidade passível de alterações a cada nova descoberta científica. Preconiza-se o consumo de uma dieta variada, colorida, baseada em alimentos naturais e frescos, ambientalmente sustentáveis, com moderação e

reverência, atributos dietéticos preconizados atualmente pela OMS.
Referências:
– Ayurveda. Citara Saúde. Disponível em: http://www.citarasaude.com.br/blog/ayurveda-2/.
Acesso em: 15 Jan. 2013.
– SIZER, Frances; WHITNEY, Eleonor. Nutrição, conceitos e controvérsias. 8.ed. Barueri, SP:
Manole, 2003. 567p.
– SILVA, Sandra Maria Chemin S.; MURA, Joana D´Arc Pereira. Tratado de Alimentação,
Nutrição e Dietoterapia. São Paulo: Roca, 2007. 1122 p.
– OLIVEIRA, Monique Cristine SCHOFFEN, João Paulo Ferreira. Oxidative Stress Action in
Cellular Aging. Braz. Arch. Biol. Technol. v.53 n. 6: pp. 1333-1342. 2010.
– OLIVEIRA, Monique Cristine SCHOFFEN, João Paulo Ferreira. Oxidative Stress Action in
Cellular Aging. Braz. Arch. Biol. Technol. v.53 n. 6: pp. 1333-1342. 2010.
Marise Berg é nutricionista com especialização em Ayurveda e idealizadora do Prãna Spa. Formada pela Escola Yoga Brahma Vidyalaya com extensão em Rasayana (rejuvenescimento) e Nutrição Ayurvedica pela Kerala Ayurvedic Chikitsalayam e International Academy of Ayurveda – Pune; e Vishwanath Panchakarma Centre – Rishikesh, Índia. Graduada em Nutrição pelo Centro Universitário São Camilo, São Paulo. Recebeu a iniciação budista dos Cinco Treinamentos da Consciência pelo Monge Thich Nhat Hanh, em 2009.

Longevidade e saúde com Ayurveda

ayurveda003

Quanto anos você tem? Menos de vinte? Trinta, quarenta, mais de cinqüenta? Seja como for, já pensou em como você estará daqui a dez anos, vinte anos? Como estará sua saúde, sua qualidade de vida? Ou você não pensa nisso? É claro que pensa ou não estaria lendo este guia ou nem o título desta matéria o atrairia. Pois bem: o que você tem feito, então, para preservar e promover a sua saúde? O que tem feito para planejar uma vida longeva e saudável? Você tem um plano de saúde?

Não estou me referindo aos ditos “planos de saúde” convencionais, aos montes no mercado e que são verdadeiros planos de doença. Sim, planos de doença, pois quem os contrata está, no mínimo, planejando adoecer, precisar de hospitais, UTIs, cirurgias, etc. Estou falando de verdadeiros planos de saúde, aqueles que fazemos quando planejamos estar e continuar saudáveis, em equilíbrio dinâmico nos aspectos físico e mental. Destes verdadeiros planos de saúde, você tem um? Pois bem, independente da sua idade, está na hora de realmente concretizar o seu plano de saúde individual ou familiar. Tendo assim decidido, então a quem consultar, a que ciência recorrer?

Quando se fala em prevenir doenças, muitas ciências despontam, mas quando se fala em promover saúde, em conquistar níveis progressivamente mais altos de equilíbrio físico, mental e energético, então, temos poucas opções. Podemos contar com a homeopatia, com a medicina tradicional chinesa, com a acupuntura, com a fitoterapia, dentre outras práticas holísticas de saúde. Mas eu quero aqui chamar a sua atenção para uma ciência que dedica a maior parte de suas especialidades em preservar e promover a saúde: o Ayurveda, o milenar sistema indiano de medicina.

O Ayurveda, do alto de seus 5.000 anos de história e confirmação científica, vem ganhando cada vez mais adeptos em todo o mundo exatamente por sua eficácia em nos proporcionar instrumentos para a promoção da longevidade com saúde. Por meio do equilíbrio e harmonia das funções vitais e dos movimentos energéticos do complexo mente-corpo, o Ayurveda nos oferece a oportunidade de retardar o processo de envelhecimento precoce. Para cumprir tais objetivos e metas, o Ayurveda descreve métodos, hábitos de vida e de conduta, regimes alimentares e plantas medicinais eficazes e de fácil aplicação. Muitas das plantas consideradas “adaptógenas” ou “drogas inteligentes” (smart drugs), que podem ser descritas como plantas que ativam o sistema auto-regulador do complexo mente-corpo e que estimulam as forças curativas do organismo, são de origem ayurvédica. A título de ilustração, podemos citar, dentre essas plantas, a Bacopa Monieri, conhecida pelo nome em sânscrito Brahmi, que estimula as funções do sistema nervoso central, regula o funcionamento neuronal, ativando a memória, a concentração, a capacidade de leitura e o aprendizado.

Vários são os casos descritos de pessoas com déficit dessas funções acima mencionadas, seja por excesso de trabalho ou por doenças prolongadas, que recuperam a capacidade de estudar e aprender, de memorizar e recordar. Outro exemplo é a famosa Hidrocotille Umbellata, planta conhecida da Índia como Mandukaparni e no Brasil comoAacariçoba, que é reverenciada por sua ação reguladora sobre o cérebro, atuando como um suave calmante natural, pacificador dos estados de ansiedade e agitação mental, o que reduz o impactos dos efeitos do estresse sobre o corpo e a mente. Podemos lembrar ainda do Tribulus Terrestris, ou Gokshura para os indianos, uma planta que ganhou o mundo e a ciência moderna por suas ações sobre a vitalidade hormonal, a libido e energia vital. Usada para aumentar as taxas de testosterona, o hormônio da libido, produz disposição física e mental para o trabalho e para a atividade sexual, mesmo em pessoas onde essas funções se encontram muito prejudicadas. Temos que falar ainda da Withania Somnifera, conhecida em todo o mundo com Aswagandha, planta medicinal com efeito tônico e revitalizante, por isto apelidada de Ginseng Indiano, que é usada por diversas indústrias de fitoterápicos por suas ações antioxidantes e rejuvenescedoras.

Poderíamos nos prolongar muito citando outros exemplos de plantas tridoshas (que harmonizam os três doshas, ou funções vitais) e as rasayanas (que nutrem os tecidos e conferem vitalidade) mas não é este o objetivo aqui. Além das plantas medicinais, o Ayurveda coloca grande ênfase nas orientações quanto aos hábitos de vida saudáveis e alimentação equilibrada como instrumentos fundamentais para a harmonia do complexo mente-corpo, ou do chamado sistema tridosha.

Conhecer o Ayurveda é uma missão indispensável para todos os que buscam auto-conhecimento e longevidade com saúde, assim para todos os que atuam profissionalmente como instrumentos nesta matéria. O conhecimento holístico festeja quando chegam ao seu seio os conceitos milenares e sábios da ciência védica, que encantam pela sua simplicidade e profundidade, duas qualidades inseparáveis. Assim, minha dica amiga é que você busque conhecer, pesquise, leia, aprenda e coloque em prática dentro do seu verdadeiro plano de saúde os conceitos ayurvédicos de longevidade com saúde, enquanto é tempo, mas sem se preocupar, porque sempre é tempo.

Danilo Maciel Carneiro é médico, homeopata, mestre e doutor em Ciências da Saúde (UFG/GO), Especialista em Ayurveda pela parceria ABRA-AVP India, Diretor Técnico do Hospital de Medicina Alternativa do Estado de Goiás, Diretor Científico da Associação Brasileira de Ayurveda (ABRA) e autor do livro “Saúde e Longevidade na Tradição Milenar da Índia”

A medicina dos Vedas

ayurveda004

Paramahansa Yogananda na sua “Autobiografía de Um Iogue” define os Vedas
de acordo com a visão de um monge hindu:
“ O hino Sama é um dos quatro Vedas, os outros três são: o Rig, o Yajur e o Atarva. Os textos sagrados expõem a natureza de Brahma, Deus o criador, cuja expressão em cada homem denomina-se atma ou alma. A raiz verbal de Brahma é brih “expandir”, que encerra o conceito védico do divino poder de crescimento espontâneo ou da irrupção em atividade criadora.O cosmo, como a teia de aranha, diz-se que evolve para fora do ser divino. Tudo que importa nos Vedas é a fusão consciente de atma com Brahma, da alma com o Espírito. Na imensa literatura da Índia, os Vedas ( raiz vid, conhecer) são os únicos textos aos quais não se atribui autor. O Rig Veda assinala uma origem divina para os hinos e nos informa que eles são a herança de antiqüíssimos tempos revertidos de linguagem nova. Diz-se que os Vedas, revelações divinas feitas aos rishis ou videntes, através das eras possuem nityatva , “finalidade intemporal”.” ( Yogananda, 1981:265)

Os Vedas são a raiz de toda a filosofia indiana, a partir dos quatro Vedas surgiram várias escolas filosóficas, muitas inclusive contraditórias, porém todas elas foram influenciadas em maior ou menor grau pelo pensamento védico. Interessante observar a afirmação de Zimmer sobre a filosofia e a mitologia hindu:
“ A filosofia hindu ortodoxa surgiu da antiga religião ária dos Vedas. Originalmente o panteão védico, com sua hoste de deuses, representava o universo onde se projetavam as experiências e idéias do homem sobre si mesmo. As características humanas do nascimento, crescimento e morte e o processo de geração eram projetadas sobre o acontecer cósmico. As luzes do céu, os variados aspectos das nuvens e das tempestades, das florestas, das cadeias de montanhas e dos cursos dos rios, as propriedades do solo e os mistérios do mundo subterrâneo eram entendidos e tratados com referencia as vidas e relações dos deuses, os quais por sua vez refletiam o mundo humano. Estes deuses eram super-homens dotados de poderes cósmicos, e podiam ser convidados a participar de uma festa através de oblações. Eram invocados, adulados, propiciados e comprazidos.” (Zimmer, 1986: 238)

O período de compilação dos Vedas é motivo de eterna controvérsia, com diferenças estarrecedoras de milhares de anos. Sobre as datas exatas da civilização indiana e os possíveis equívocos dos diversos autores Svoboda afirmou:
“Ninguém sabe exatamente quando a civilização se desenvolveu na Índia; todas as datas são arbitrárias ate a época de Gautama Buddha ( 563 a 483 A C)” (Svoboda, 1992:9)

O Professor Max Muller eminente erudito alemão de Oxford em seu trabalho “Os Seis Sistemas de Filosofia Indiana”, publicado em 1900, afirmou:
“ De qualquer maneira que os Vedas possam ser chamados, eles são para nós únicos e guias sem preço em abrir perante nossos olhos tumbas de pensamentos mais ricos em relíquias que as tumbas reais do Egito e mais antigos e primitivos em pensamento do que os mais antigos hinos da Babilônia ou dos poetas acadianos.Se nós garantirmos que eles pertencem ao segundo milênio anterior a nossa era nós estaremos, provavelmente, em solo seguro, entretanto nós não devemos esquecer que esta é somente uma data construtiva e tal data não se torna verdadeira pela mera repetição.” ( Muller, em Feuerstein, Kak e Frawley, 1999: 106)

Confrontando a afirmação de Max Muller com observações astronômicas que são citadas no Rig Veda, considerado o mais antigo dos quatro Vedas, podemos observar como os autores e pesquisadores discordam com relação as datas da era védica:
“ As referencias astronômicas do Rig Veda foram avaliadas pela primeira vez por Bal Gangadhar Tilak, um elogiado erudito e político da Índia do final do século XIX. Entretanto sua visão foi sumariamente desvalorizada pela maioria dos outros pesquisadores. O fato que o Rig Veda menciona uma configuração estelar que corresponde ao período de 6000 a 7000 A C , a era astronômica Ashvini, não deve ser meramente negada mas adequadamente explicada.”( Feuerstein, Kak & Frawley, 1999;107)

Os Vedas são, considerados dentro da tradição hindu, hinos religiosos que são a fonte das principais filosofias indianas. A Medicina Védica é encontrada em dois dos quatro Ve-das: o Rig Veda e o Atharva Veda.
Anderson Moreira da Rocha
Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.

Susruta Samhita

Na milenar tradição do Ayurveda é dito que existem duas escolas principais: a escola de Charaka-Atreya, de medicina interna, e a escola de Dhanvantari-Susruta que é a escola de cirurgia. O clássico Susruta Samhita é considerado o primeiro livro de cirurgia da história da medicina. Susruta, se é que existiu um médico com este nome, era um cirurgião da antiga Índia, que foi aluno de uma figura mítica chamado Dhanvantari. Bhishagratna na sua tradução do Susruta Samhita para o Inglês coloca:
“ …Quando o santo Dhanvantari, o maior dos poderosos celestiais, encarnou na forma de Divodasa, o rei de Kasi, estava sentado em seu eremitério, cercado pelos sábios;…Susruta e outros lhe falaram o seguinte: “ó senhor, nos aflige muito encontrar os homens…caindo vitimas das doenças, mentais, físicas, traumáticas ou naturais, e lamentavelmente gemendo em agonia como criaturas sem amigos… e nós suplicamos a vós, ó Senhor, para iluminar nossas mentes com o eterno Ayurveda…para que nós possamos aliviar o sofrimento da humanidade como um todo. Bem-aventurança nesta vida e após, é a dádiva deste eterno Ayurveda, e para isto, ó Senhor, nós nos fizemos destemidos para abordá-lo como vossos humildes discípulos. Para eles, respondeu o santo Dhanvantari:“bem-vindos a todos vocês a este bem-aventurado eremitério. Todos vocês são dignos da honra do discipulado.” ( Bhishagratna, 1991: 1 e 2)
Este é o primeiro parágrafo do primeiro capitulo do Susruta Samhita, notamos a forte presença da religião hindu no texto, pois Dhanvantari, na mitologia é o deus da medicina, que encarna como rei em Kasi , cidade de Benares ou Varanasi, “Cidade da Luz’ segundo a tradição fundada pelo deus Shiva, renovador da criação na mitologia hindu. Varanasi é considerada uma das cidades mais antigas do mundo e afirma-se que ela mantem a sua vida religiosa desde o VI século antes de Cristo ou seja justamente no período da vida de Buda. Varanasi ou Kashi é considerada pelos indianos como a cidade mais sagrada do mundo e local de muitos templos e peregrinações religiosas. (Abram e cols., 1996: 322)

Susruta significa “aquele que escutou bem” , e o autor do clássico refere-se a Susruta na terceira pessoa e o descreve como o digno filho de Visvamitra, que é na verdade um nome de família. No Rig Veda existe um sábio autor do hino Gayatri que possui o nome de Visvamitra. Ramachandra Rao coloca que existiu um Visvamitra descendente deste autor do Rig Veda que era médico e provavelmente o pai de Susruta. Sobre a data do tratado Filliozat afirma:
“ Provisoriamente nós podemos considerar o Susruta Samhita como um trabalho dos últimos séculos antes da nossa era, o qual atingiu a sua forma definitiva nos primeiros séculos da era cristã.” (Filliozat, 1964: 15)

A controvérsia com relação as datas antigas é muito grande, e este caso não é uma exceção a esta regra geral. Nós podemos encontrar na literatura de origem indiana diferenças que vão até várias centenas de anos. Ramachandra Rao afirma com relação ao trabalho original do cirurgião Susruta:
“ Pode-se supor que o original Samhita de acordo com os ensinamentos de Dhanvantari-Divodasa era o traballho do velho Susruta que pode ter vivido antes ou durante o século VI A C (como acredita Hoenle) ou mesmo cerca de 1000A C ( como Afirma Mukhopadhyaya). O trabalho foi reformulado, provavelmente, em uma data posterior, nos primeiros séculos da era cristã.”(Rao, 1985: 94)

Como podemos aceitar o trabalho destes autores como fidedignos quando eles discordam por 400 anos? Este é um bom exemplo de como é difícil chegar a uma provável data com relação aos tratados antigos do Ayurveda. Relembrando as palavras de Svoboda:
“ Todas as datas são arbitrarias até a época de Gautama 563 A C a 483 A C)” (Svoboda, 1992; 9)

O principal comentario do Susruta Samhita foi escrito por um famoso monge budista chamado Nagarjuna que também era alquimista e filósofo. Com relação a Nagarjina Feuerestein comenta:
“ O mestre budista Nagarjuna, do século II D C, não foi somente um célebre taumaturgo ( siddha) e alquimista tantrico mas também um gênio filosófico de primeira categoria.” (Feuerstein, 2001: 271)

Ramachandra Rao refere sobre Nagarjuna:
“ No campo da medicina, ele é reconhecido como ter reescrito todo o Suruta Samhita, que provavelmente estava em um pobre estado de preservação durante os seus dias.” (Rao, 1985: 71)

Este importante personagem da história do Ayurveda, através de seus múltiplos conhecimentos, faz uma conexão, já citada anteriormente nesta monografia, entre a Medicina Indiana, a alquimia tantrica e o budismo. Como vimos a alquimia indiana provavelmente sofreu influencia da alquimia chinesa que estava associada ao taoísmo e a tradição médica na China.

Prana é a energia da vida ligada a respiração, oxigena¬ção e circulação. Governa também todas as funções motoras e sensoriais. A força vital prânica inflama o fogo central cor¬poral (agni). A inteligência natural do corpo é manifestada espontaneamente através de prana. Por exemplo, se uma criança tem deficiência de ferro ou cálcio, a inteligência na¬tural do corpo governada por prana levará a criança a comer lama, que é uma fonte daqueles minerais.

A sede de prana é a cabeça e prana governa todas as atividades cerebrais superiores. As funções da mente, da memória, do pensamento e das emoções estão todas sob o controle do prana. O funcionamento fisiológico do coração também é governado pelo prana, e do coração prana penetra no sangue e então controla a oxigenação em todos os dhatus e órgãos vitais.

Prana governa as funções biológicas das outras duas essências ojas e tejas. Durante a gravidez, o umbigo do feto éa principal porta por onde prima entra no útero e no corpo do feto. Prana governa também a circulação de ojas no feto. Assim, em todos os humanos, mesmo naqueles que ainda não nasceram, um distúrbio do prana pode criar um desequilíbrio de ojas e tejas, e vice-versa.

Ojas é a essência dos sete dhatus ou tecidos corpóreos. E a energia vital que governa o equilíbrio hormonal. O elemen¬to por excelência de shukralartav, que é a essência de todos os dhatus, está localizado no coração. Ojas é a energia vital que controla as funções da vida com a ajuda do prana. Ojas con¬tém os cinco elementos básicos e todas as substâncias dos tecidos corpóreos. É responsável pelo sistema auto-imune e pela inteligência mental.

Porque ojas está relacionada a kapha, o agravamento de kapha desaloja ojas e vice-versa. Ojas, quando desalojada, cria as desordens kapha como diabetes, lassidão dos ossos e juntas, entorpecimento dos membros. Ojas, quando reduzida, irá criar reações-vata, como medo, fraqueza geral, incapacidade da per¬cepção dos sentidos, perda de consciência e morte. Ojas equi¬librada é necessária para a energia e imunidade biológicas.

Ghee ajuda a intensificar ojas. O leite materno promove ojas no corpo da criança, portanto é essencial que a criança receba o leite materno para desenvolver o vigor biológico. Durante o oitavo mês de gravidez, ojas proveniente do corpo da mãe vai para dentro do feto. Assim, se o nascimen¬to for prematuro, antes dessa transferência de ojas, a criança encontrará dificuldade para sobreviver. Esse fenômeno de¬monstra a importância de ojas na manutenção das funções da vida. Assim como ojas é fundamental no início da vida, énecessária também para a longevidade.

No nível psicológico, ojas é responsável pela compaixão, pela paz, pela criatividade e pelo amor. Através de pranayama, disciplina espiritual e técnicas tântricas, a pessoa pode transformar ojas em força espiritual. Essa poderosa energia espiritual cria uma aura ou auréola ao redor da coroa chakra. Uma pessoa que tem ojas fortalecida possui atrativos, olhos brilhantes, sorriso espontâneo e calmo. É plena de energia e poder espirituais. Práticas espirituais e celibato realçam essas qualidades. Aqueles que procuram excessiva satisfação em sexo e masturbação dissipam a energia ojas no momento do orgasmo. O resultado é ojas enfraquecida que afeta diretamente o sistema imunológico. Tal pessoa torna-se vulnerável a males psicossomáticos.

Tejas é a essência de um fogo muito sutil que governa o metabolismo através do sistema de enzimas. Agni, o fogo central no corpo, estimula a digestão, absorção e assimilação do alimento. A transformação posterior dos ingredientes da nutrição nos tecidos sutis é administrada por um nível sutil de energia, pertencente a agni é tejas. Tejas é necessária para a nutrição e transformação de cada dhatu. Cada dhatu tem sua própria tejas, ou dhatu-agni. Essa essência é responsável pelo funcionamento fisiológico dos tecidos sutis.

Quando tejas é agravada, ela consome ojas lentamente reduzindo a imunidade e superestimulando a atividade prânica. Prana agravado produz desordens degenerativas no dhatus. A falta de ojas resulta na superprodução de tecido insalubre, que cria o desenvolvimento de tumores e obstrui o fluxo da energia prânica. Dieta inadequada, maus hábitos de vida e uso excessivo de drogas causarão um desequilíbrio em tejas. Substâncias que são picantes, acres e penetrantes intensificam tejas dire¬tamente.

Da mesma forma que é essencial para a saúde assegurar o equilíbrio entre o tridosha, os dhatus e os três malas, ou re¬síduos corporais, para a longevidade é importante que prana, ojas e tejas permaneçam equilibrados. Para criar tal equilí¬brio, o processo de rejuvenescimento ensinado pela Ayur¬veda é o mais eficaz.

Anderson Moreira da Rocha
Médico de família, reumatologista, acupunturista e especialista em Ayurveda pelo Arya Vaidya Phramacy, tradicional escola de Ayurveda do sul da Índia. Mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, presidente da Associação Brasileira de Ayurveda e autor do livro “ A Tradição do Ayurveda” pela editora Águia Dourada.